
TDAH em adultos e crianças: o olhar da psicanálise
Por Lígia Daher, psicóloga clínica · CRP 04/82172
Exploramos a abordagem psicanalítica do TDAH, buscando entender como o inconsciente se manifesta na desatenção, hiperatividade e impulsividade.
A atenção, a concentração, a capacidade de pausar e refletir antes de agir, são funções que, para muitos, parecem dadas. No entanto, para aqueles que vivem a experiência do Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH), este panorama pode ser radicalmente diferente. Mais do que uma simples etiqueta diagnóstica, o TDAH pode ser a manifestação de conflitos internos profundos, uma intrincada caminhada entre o consciente e as camadas mais recônditas da psique. Como a psicanálise pode nos ajudar a escutar o que o TDAH tenta comunicar?
O que o TDAH Tenta Nos Dizer Através da Desatenção Constante?
Frequentemente, a desatenção no TDAH é vista como uma falha, uma incapacidade de focar. Contudo, sob uma ótica psicanalítica, podemos nos perguntar: para onde a atenção está, de fato, sendo direcionada? Aquilo que parece desatenção pode ser, na realidade, um excesso de "atenção" a conteúdos inconscientes, a fantasias, a defesas psíquicas que operam em segundo plano. Talvez, o sujeito esteja tão ocupado evadindo realidades internas dolorosas ou mantendo recalques, que a energia psíquica disponível para a atenção externa se esvai. Isso não significa negar a dimensão neurobiológica do TDAH, mas sim expandir a compreensão para além dela. Ao invés de meramente "corrigir" a desatenção, a psicanálise propõe uma aprofundada escuta para o que ela simboliza. O "vagar da mente" pode ser uma fuga de pensamentos ansiogênicos, uma resistência a lidar com exigências externas que remetem a conflitos infantis, ou até mesmo uma forma de manter um espaço psíquico interno onde o sujeito pode se sentir mais seguro e protegido das pressões do mundo.
A Hiperatividade: Movimento Constante como Expressão Inconsciente?
A desatenção esconde algo mais profundo?
Se a desatenção constante ou a inquietação te acompanham, talvez seja o momento de olhar para o que esses sinais querem realmente dizer. Uma escuta qualificada pode abrir novas perspectivas.
A hiperatividade, o movimento ininterrupto, a inquietação corporal, também pode ser lida como uma linguagem. É quase como se o corpo estivesse tentando expressar uma angústia ou um excesso de energia psíquica que não encontra vazão em palavras ou em outras formas de elaboração. A necessidade de estar constantemente em movimento pode mascarar uma dificuldade em se estabilizar internamente, em conter afetos intensos ou em lidar com a estagnação emocional. Para um psicanalista, a pergunta que surge não é apenas "como frear esse movimento?", mas sim "o que este movimento incessante significa?". Pode ser uma defesa contra o desprazer, uma tentativa de evitar o encontro com o vazio ou a solidão, ou a expressão de uma excitação interna incontrolável que remete a experiências primárias. Compreender a hiperatividade sob essa perspectiva permite ir além da superfície, buscando os fios que tecem essa manifestação no tecido psíquico do sujeito.
Qual o Elo entre Impulsividade e os Desejos Inconscientes?
A impulsividade, por sua vez, é a ação sem o crivo da reflexão, o desejo que se manifesta sem mediação. Sob a lente psicanalítica, a impulsividade pode ser vista como um atalho do inconsciente para se expressar, uma falha na barreira do recalque. Os desejos, fantasmas e medos que habitam as profundezas da mente encontram na impulsividade uma brecha para vir à tona, muitas vezes, de forma desorganizada e até autodestrutiva. Nesse sentido, o ato impulsivo não é apenas um "erro" de comportamento, mas um sintoma, uma formação de compromisso entre o desejo inconsciente e as proibições externas e internas. A investigação psicanalítica busca entender qual desejo está sendo atendido ou qual conflito está sendo encenado através da impulsividade, abrindo caminho para uma elaboração mais consciente e para a construção de outras formas de lidar com essas tensões internas.
Como a Psicanálise Acolhe e Compreende as Crianças e Adultos com TDAH?
Na prática clínica, a psicanálise oferece um espaço único para o sujeito com TDAH, seja ele criança ou adulto. Não se trata de uma busca por "cura" no sentido de erradicar os sintomas, mas de um percurso de compreensão profunda. É um convite para que a pessoa possa simbolizar suas experiências, dar nome aos seus afetos e entender as raízes inconscientes que contribuem para as manifestações do TDAH. Através da fala, do brincar (no caso das crianças), e da relação transferencial, é possível construir um campo onde esses movimentos internos possam ser escutados e elaborados. Este tema é aprofundado na prática clínica apresentada em www.ligiadaher.com.br. A psicóloga que trabalha com a abordagem psicanalítica oferece um acolhimento diferenciado, compreendendo que por trás do sintoma há uma história, um sujeito complexo em busca de expressão. A escuta analítica não julga a desatenção ou a hiperatividade, mas as vê como rastros, como pistas para o mundo interno. É um processo de tecer sentidos, de permitir que o sujeito construa uma narrativa mais coerente sobre si mesmo, aprendendo a lidar com suas dificuldades não através da repressão, mas da compreensão e da elaboração psíquica.
O Papel da Escuta Clínica na Reorganização da Experiência Interna?
A escuta clínica, fundamental na psicanálise, desempenha um papel crucial na reorganização da experiência interna de quem vivencia o TDAH. Ela oferece um continente seguro, onde as angústias, as frustrações, e as dificuldades de regulação afetiva podem ser expressas sem crítica. O analista, ao escutar sem preconceitos e ao interpretar quando o inconsciente se manifesta, ajuda o sujeito a construir novas conexões, a integrar partes fragmentadas de sua psique e a encontrar outras formas de estar no mundo. É um trabalho de paciência e dedicação, onde a palavra ganha peso e a possibilidade de simbolizar a experiência se torna um caminho para a transformação. A partir dessa escuta atenta, o sujeito pode começar a entender por que certas situações disparam sua desatenção ou sua impulsividade, desenvolvendo estratégias mais adaptativas e conscientes. A saúde mental é um percurso, e a psicanálise convida a uma viagem profunda rumo à apreensão das próprias nuances.
Pronta(o) para escutar o que sua psique quer comunicar?
Compreender as manifestações do TDAH sob uma perspectiva mais profunda pode ser o primeiro passo para um bem-estar emocional duradouro. Permita-se ser acolhida(o) nesse percurso.



