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Quando o filho cresce: o luto dos pais pela infância que acabou
•4 min de leitura

Quando o filho cresce: o luto dos pais pela infância que acabou

Por Lígia Daher, psicóloga clínica · CRP 04/82172

A transição da infância para a adolescência do filho é um luto para os pais. Explore essa fase com uma visão psicanalítica para transformar o desafio em oportunidade.

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A adolescência surge não apenas como uma fase de reconfiguração para o adolescente, mas também como um potente disparador de processos inconscientes nos pais. Muitas vezes, essa travessia é acompanhada por um sentimento ambíguo, uma mistura de orgulho pela autonomia que emerge e uma dor sutil pela perda de um tempo que não volta mais. É aqui que a psicanálise encontra um campo potente para a compreensão do que chamamos de "luto parental" pela infância que se vai.

O Espelho da Partida: A Criança que Não É Mais

A saída da infância, com suas certezas e dependências, provoca nos pais a confrontação com a finitude de um ciclo. Aquele ser que antes necessitava de amparo constante, agora busca o próprio caminho, ainda que incerto. Essa busca por individualidade, que se traduz em novos interesses, novas amizades e uma nova linguagem, pode soar como uma despedida. O luto aqui não é pela perda física, mas pela dissolução da imagem idealizada da criança que se acreditava ter, ou pela interrupção de um eu parental que se estabeleceu em função dessa criança. A psicanálise nos ensina que o luto é um processo de desinvestimento libidinal, e, nesse contexto, representa o desapego de um estado de ser e a elaboração de uma nova relação com o filho adolescente. É um processo que demanda tempo e espaço para que as emoções possam ser acolhidas e transformadas.

O ECO do Passado: Ressonâncias da Própria Adolescência

Algo aqui tocou você?

Às vezes, uma leitura pode abrir portas para uma escuta mais profunda do que se vive.

É inevitável que a adolescência do filho traga à tona ecos da própria adolescência dos pais. Questões não resolvidas, angústias, rebeldias silenciadas ou desejos não realizados podem vir a tona, misturando-se aos desafios atuais. Esse encontro com o passado pode intensificar o luto, tornando-o mais complexo. O espaço analítico oferece um acolhimento para que essas ressonâncias sejam compreendidas, permitindo que os pais diferenciem suas próprias questões das do filho. Esse trabalho permite que a relação seja construída sobre uma base mais sólida, onde o filho possa ser visto e compreendido em sua alteridade, e não apenas como um espelho das projeções parentais. É um movimento em direção a uma presença mais íntegra e menos reativa diante das novas demandas que chegam.

Construindo Pontes para a Nova Paisagem

Reconhecer e acolher esse luto é o primeiro passo para a construção de uma nova relação com o filho adolescente. É preciso permitir-se sentir a tristeza, a nostalgia, a raiva ou a frustração. Negar esses sentimentos pode dificultar a transição e a adaptação à nova dinâmica familiar. A escuta psicanalítica propõe que, ao invés de tentar "segurar" a criança que se foi, os pais possam abrir-se para o novo, para a pessoa que o filho está se tornando. Significa permitir a elaboração de novos arranjos afetivos e a redefinição de papéis. Não é fácil, mas é um percurso fundamental para o desenvolvimento saudável do núcleo familiar, onde a capacidade de adaptação e a flexibilidade emocional se tornam aliadas valiosas.

A Convocação à Presença: Recriando Vínculos

A adolescência do filho é uma convocação à presença de uma nova forma. Não é mais a presença onipresente que nutria a infância, mas uma presença que respeita a distância, que oferece suporte sem sufocar, que escuta sem julgar. É um convite à reconstrução de vínculos, agora mais horizontais e baseados no respeito mútuo. Esse processo de luto e adaptação parental é, em sua essência, um movimento de renovação. É a oportunidade de descobrir novas formas de comunicação, de celebrar as conquistas do filho e de reafirmar o amor, que, transformado, encontra novas maneiras de expressar-se. A travessia da adolescência, vista pela lente psicanalítica, não é um fim, mas um recomeço e uma expansão de possibilidades na família.

Este tema é aprofundado na prática clínica apresentada em ligiadaher.com.br.

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Compreendendo as travessias da vida e suas transformações, Lígia Daher (CRP 04/82172).

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