
Adolescente que não conversa: como se aproximar
Por Lígia Daher, psicóloga clínica · CRP 04/82172
A adolescência é um tempo de transformações nas dinâmicas familiares, um convite a olhar para as transformações nas relações.
##Entre o que se diz e o que se escuta na família
Quando a adolescência chega, a dinâmica da família muda — e não é só para o jovem. Pais, mães e cuidadores também se veem diante da necessidade de rever seu jeito de estar, de falar e de escutar. Conversas que antes pareciam simples podem ficar mais difíceis. Às vezes, o que antes era troca vira silêncio, resposta curta ou até conflito. Fica a dúvida: o que está sendo dito de fato? E o que está sendo escutado? Nesse desencontro, surge um espaço cheio de ruídos, expectativas e frustrações.
##O que está por trás do que é dito
Algo aqui tocou você?
Às vezes, uma leitura pode abrir portas para uma escuta mais profunda do que se vive.
Na psicanálise, a comunicação não se resume às palavras. O que sentimos, nossa história e até aquilo que não percebemos conscientemente entram em jogo o tempo todo. Na adolescência, isso se intensifica. O jovem está tentando se entender, se separar das referências da infância e construir quem ele é. E isso aparece nas falas. Um “não sei” pode ser muito mais do que falta de resposta — pode ser confusão, dúvida, busca. Um “tanto faz” pode ser uma tentativa de se afastar, de ganhar autonomia. Olhar só para o que é dito, sem considerar o que está por trás, costuma limitar bastante o entendimento.
##Quando o passado entra na conversa
Os pais também não chegam “neutros” nessa relação. Eles trazem suas próprias histórias, suas experiências como filhos, suas frustrações e expectativas. Muitas vezes, a reação a um filho adolescente tem mais a ver com o que aquilo desperta internamente do que com a situação em si. Certas atitudes do jovem podem tocar em pontos sensíveis, em coisas que ficaram mal resolvidas lá atrás. E isso influencia diretamente na forma como o diálogo acontece — ou deixa de acontecer.
##Estar presente sem invadir
Se comunicar com um adolescente exige um certo equilíbrio. Estar por perto, disponível, mas sem invadir. Oferecer apoio sem querer controlar tudo. Nem sempre vai ter resposta pronta, e tudo bem. Às vezes, o mais importante é sustentar a escuta, mostrar que existe um espaço ali, mesmo quando o outro não quer ou não consegue falar muito. A presença, nesse sentido, já comunica bastante. Mais do que ter o discurso certo, é sobre criar um ambiente onde o jovem possa, aos poucos, se sentir à vontade para ser quem é. É um processo, com avanços e recuos, onde todos estão aprendendo a ocupar novos lugares dentro da relação.
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